Durante semanas, poucas expressões mobilizaram tanto a atenção mundial quanto “FIFA”, “World Cup” e “Copa do Mundo 2026”. As tendências de pesquisa registradas pelo Google revelaram o tamanho desse interesse. Não se trata apenas de futebol. Trata-se de um fenômeno capaz de ocupar telas, conversas, empresas, governos, aeroportos, ruas e afetos em diferentes partes do planeta.
A Copa do Mundo de 2026 confirmou a extraordinária capacidade humana de organização. Pela primeira vez, 48 seleções disputaram o torneio, realizado em três países Canadá, México e Estados Unidos, com 104 partidas distribuídas por 16 cidades-sede. Milhares de profissionais, empresas, patrocinadores, governos e instituições trabalharam para que bilhões de pessoas pudessem acompanhar o espetáculo.
E há algo bonito nisso. Durante uma partida, desconhecidos se abraçam. Pessoas que não falam a mesma língua cantam juntas. Crianças reconhecem bandeiras de países que talvez nunca tenham visitado. Famílias reorganizam suas rotinas. Nações inteiras compartilham esperança, frustração, alegria e pertencimento. O futebol nos lembra que ainda somos capazes de sentir coletivamente. Mas também nos obriga a formular uma pergunta incômoda:
Se conseguimos mobilizar tantos recursos, tanta tecnologia, tanta inteligência e tamanha vontade coletiva para realizar um evento esportivo, por que não conseguimos mobilizar a mesma urgência para proteger vidas humanas?
Não se trata de condenar a Copa do Mundo, o futebol ou a alegria popular. O problema não está no que celebramos. Está no abismo existente entre aquilo que recebe a nossa atenção e aquilo que aprendemos a ignorar.
Enquanto o mundo acompanhava escalações, resultados e comemorações, cerca de 117,8 milhões de pessoas permaneciam deslocadas à força em razão de guerras, perseguições, violência, violações de direitos humanos e graves perturbações da ordem pública. São homens, mulheres e crianças que não deixaram suas casas porque desejavam conhecer outro país. Fugiram porque permanecer poderia significar morrer.
Enquanto marcas disputavam visibilidade em um dos maiores espetáculos do planeta, aproximadamente 673 milhões de pessoas enfrentavam a fome. Outros 2,3 bilhões cerca de 28% da população mundial viviam algum grau de insegurança alimentar moderada ou grave, sem a certeza de que teriam acesso regular a alimentos suficientes e adequados. Na África e na Ásia Ocidental, a situação continuou se agravando.
Os números são gigantescos. Talvez esse seja justamente o problema. Quando a dor é apresentada em milhões, perdemos a capacidade de enxergar cada pessoa. O refugiado torna-se fluxo migratório. A criança com fome transforma-se em percentual. A mulher violentada aparece como estatística. O jovem assassinado converte-se em ocorrência. O corpo deixa de possuir nome, história, família e sonho.
Aprendemos a administrar a tragédia sem permitir que ela nos atravesse. Assistimos à guerra pela tela do telefone. Vemos crianças feridas entre uma propaganda e outra. Conhecemos histórias de violência e, segundos depois, continuamos deslizando o dedo. Não necessariamente porque somos pessoas cruéis, mas porque a repetição produz anestesia. A exposição permanente ao sofrimento pode criar a falsa sensação de que nada mais pode ser feito. É nesse ponto que a desumanização deixa de ser apenas aquilo que fazemos contra o outro. Ela também passa a ser aquilo que deixamos de sentir diante dele.
Em Vigiar e Punir, Michel Foucault mostra como as sociedades modernas desenvolveram mecanismos cada vez mais sofisticados para observar, classificar, disciplinar e administrar os corpos. O poder não se manifesta apenas na força visível. Ele também opera quando algumas vidas passam a ser consideradas produtivas, protegidas e dignas de investimento, enquanto outras se tornam descartáveis, indesejadas ou invisíveis.
Essa lógica ultrapassa os muros das prisões. Ela aparece quando aceitamos que determinadas populações vivam permanentemente sob violência. Quando naturalizamos crianças sem alimentação adequada. Quando transformamos migrantes e refugiados em ameaça antes mesmo de reconhecê-los como seres humanos. Quando discutimos fronteiras, leis e interesses econômicos sem perguntar o que levou aquela mãe a atravessar o mar com um filho nos braços.
As fronteiras não existem apenas entre países. Existem fronteiras morais que determinam até onde nossa solidariedade consegue chegar. O cinema já nos apresentou histórias de pessoas comuns que decidiram romper essas fronteiras. Em vez de apenas assistir às notícias sobre refugiados morrendo no Mediterrâneo, jovens europeus organizaram embarcações, reuniram recursos e se lançaram ao mar para salvar desconhecidos.
Não possuíam o poder de encerrar guerras nem de modificar sozinhos a política internacional. Mas compreenderam que, diante de uma vida em risco, a indiferença também é uma escolha. Enquanto alguns discutiam quem deveria entrar, eles decidiram impedir que pessoas morressem. Talvez seja essa a diferença entre assistir ao mundo e assumir responsabilidade por ele.
A humanidade não se revela somente em grandes discursos, tratados internacionais ou campanhas milionárias. Ela aparece quando somos capazes de reconhecer no sofrimento de alguém que nunca vimos uma parte da nossa própria condição. A Copa do Mundo demonstrou que a humanidade possui recursos, capacidade de coordenação e disposição para agir coletivamente. Quando existe um objetivo comum, distâncias são vencidas, estruturas são construídas, tecnologias são desenvolvidas e bilhões de pessoas são conectadas.
Portanto, não é verdade que nos faltem meios. Talvez nos falte decisão política, prioridade social e, sobretudo, a compreensão de que nenhuma vida deveria precisar se transformar em espetáculo para merecer atenção.Gostamos de imaginar que a desumanização começa com grandes atos de crueldade. Nem sempre. Às vezes, ela começa silenciosamente quando uma tragédia já não nos interrompe; quando a dor do outro deixa de provocar perguntas; quando consideramos normal aquilo que jamais deveria ser aceitável.
É possível amar o futebol, celebrar uma vitória e vibrar com uma seleção. A alegria também é um direito humano. Mas ela não pode nos impedir de enxergar o mundo que permanece do lado de fora dos estádios. Porque uma sociedade não se mede apenas pela grandiosidade dos eventos que consegue organizar. Mede-se pela forma como trata quem não possui ingresso, patrocinador, câmera, torcida ou voz. Talvez o maior perigo do nosso tempo não seja apenas o crescimento da violência, da fome ou das guerras. Talvez seja a possibilidade de nos acostumarmos com tudo isso.
Uma humanidade capaz de parar o mundo por um gol também deveria ser capaz de se levantar para salvar uma vida.
Sobre a autora
Elisangela” Zazá” Sousa
Pesquisadora dedicada aos desafios contemporâneos da democracia, das políticas públicas e dos direitos humanos. Historiadora, Mestra em Direito, Governança e Políticas Públicas e Doutoranda na Universidade de Salamanca, Espanha.