Dr. Fabio Vilas-Boas
Cardiologista | Doutor em Ciências (USP) | Titular
Academia de Medicina da Bahia
Quando se discute desperdício na saúde, o foco geralmente recai sobre exames desnecessários, medicamentos caros ou fraudes. Esses são problemas que existem, mas acredito que há um desperdício ainda maior, mais custoso e muito mais silencioso: pacientes permanecendo em hospitais de alta complexidade quando já não precisam estar lá.
Esse tempo prolongado no hospital é visto apenas como um problema de gestão de leitos, mas é muito mais que isso. No fundo, é uma questão de qualidade do atendimento.
Uma vez que a fase aguda da doença termina, o paciente precisa de cuidados diferentes. Ao invés de equipamentos sofisticados, o que se faz necessário é fisioterapia intensiva, reabilitação, terapia ocupacional, fonoaudiologia, controle de sintomas, apoio na alimentação e um planejamento cuidadoso para que ele possa voltar à sua vida. Ficar em um hospital de alta complexidade nessa fase, muitas vezes, significa oferecer o cuidado inadequado, no lugar errado.
E o custo dessa escolha é alto. Cada dia a mais representa um aumento do risco de infecções relacionadas à assistência, delirium, perda de massa muscular, incapacidade funcional e dependência. Muitos pacientes saem do hospital vivos, mas muito mais fragilizados do que estavam antes, após enfrentarem a doença que levou à internação.
Por isso, é importante mudarmos a maneira como avaliamos o sucesso do atendimento. Salvar vidas continuará sendo nossa principal missão, mas isso não é o suficiente. Precisamos nos perguntar: em que condições esse paciente está voltando para casa? Ele recuperou sua autonomia? Conseguiu voltar a andar? Retomou sua rotina? Esses resultados têm tanto valor quanto os indicadores tradicionais.
Os sistemas de saúde mais eficientes do mundo já compreenderam essa lógica há décadas. Eles organizaram redes onde cada paciente recebe o cuidado certo, no ambiente certo e no momento certo. O hospital de alta complexidade é responsável pela fase crítica. Depois, entram em cena os hospitais de transição, a reabilitação e, quando necessário, os cuidados paliativos.
Estou convencido de que essa é uma das maiores dificuldades da saúde no Brasil. O futuro não está apenas em construir mais hospitais ou adquirir mais tecnologia. Está em organizar melhor a jornada do paciente.
Porque liberar um leito é um sinal de eficiência. Mas uma pessoa que recupera sua independência é o verdadeiro sucesso da medicina.