Por que o dinheiro não rende mais como antes?

Foto: Divulgação
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Meu pai, um negociante nato, sempre repetia uma frase que ouvi muitas vezes e que, a cada dia, faz mais sentido para mim. “Para quem paga é sempre muito, para quem recebe é sempre pouco. A arte está em encontrar o meio termo e a sensação de equilíbrio. É difícil, mas só assim todo mundo fica satisfeito.”


Durante muito tempo, essa frase me pareceu apenas uma lição de vida e de negociação. Hoje, olhando para a forma como o dinheiro circula no Brasil, ela me parece também uma síntese econômica. O consumidor paga caro, o trabalhador recebe pouco, a empresa desembolsa muito, tem margens cada vez mais apertadas e reinveste pouco. Onde esse valor se perde?


Imagine uma compra comum. Saem R$ 100 da sua mão para comprar carne em um açougue. A sensação é direta. Paguei pela carne. Mas, na prática, aqueles R$ 100 começam imediatamente a ser repartidos. Uma parte fica em impostos, outra na taxa da maquininha do cartão, outra pode estar embutida no custo da antecipação do recebível, porque nem sempre o dinheiro entra no caixa do comerciante no mesmo momento em que sai da conta do consumidor.


O açougueiro usa parte do que recebeu para pagar energia, aluguel, folha, contador, perdas, embalagens, manutenção e reposição de estoque. Quando compra embalagem, há imposto, frete, prazo, custo financeiro e margem de outro fornecedor. Quando repõe estoque, o distribuidor também carrega seus custos, riscos e estrutura. Antes dele, o frigorífico fez o mesmo. Antes do frigorífico, o produtor também. O dinheiro que saiu inteiro da sua mão como consumidor vai perdendo força a cada etapa.


A carne foi escolhida justamente por parecer simples, quase elementar. Alguém cria, alguém abate, alguém distribui, alguém vende e alguém compra. Se mesmo um produto in natura já carrega tantas camadas, imagine um celular, um computador ou um equipamento médico, com componentes eletrônicos, certificações, câmbio, logística, assistência e manutenção. O preço final deixa de refletir apenas o valor do objeto e passa a carregar o peso do sistema que o trouxe até ali.


É claro que esse dinheiro não desaparece. Impostos, crédito, maquininhas, distribuidores e normas regulatórias têm função. O problema está no limite. Em que momento passamos a remunerar mais a engrenagem do que aquilo que efetivamente produz valor? Quando a intermediação facilita, ela agrega valor. Quando encarece, posterga, burocratiza e causa erosão de margem, começa a asfixiar a economia real.


A ideia lembra, por analogia, a lógica da Curva de Laffer, normalmente usada para discutir arrecadação tributária. Em linhas simples, ela sugere que, a partir de certo ponto, aumentar a carga de impostos pode reduzir a própria arrecadação, seja porque a atividade econômica perde força, seja porque crescem os incentivos à informalidade, à sonegação ou a outras formas de escapar do excesso de cobrança. Aqui, o ponto não é discutir imposto isoladamente, nem transformar o debate em uma crítica tributária.


A provocação é outra. Se ampliarmos esse raciocínio para o custo total da engrenagem, impostos, juros, burocracia, intermediações, inadimplência, prazos, antecipações e desperdícios, talvez encontremos uma pergunta parecida. Até que ponto o custo de fazer o dinheiro circular começa a reduzir o próprio valor que a economia consegue produzir e devolver para a sociedade?


Há ainda o efeito do tempo. No Brasil, quase nada acontece à vista de verdade. A indústria compra a prazo, o varejo parcela, o consumidor compra no cartão, o lojista antecipa recebíveis, alguém embute juros no preço, alguém atrasa, alguém cobre a inadimplência. O dinheiro também se perde no prazo, no risco, no atraso e na necessidade permanente de financiar o próprio giro da vida.


A inadimplência costuma ser tratada como a causa do encarecimento do sistema, e de fato pode até ter a sua parcela de culpa. Mas talvez devêssemos perguntar também quanto dela é produzida pelo próprio sistema, que está cada vez mais caro e que diz apenas reagir a ela. Se, ao longo da cadeia, o dinheiro vai sendo encolhido, é natural que chegue menos valor real à ponta final. 


Agora pense que você, consumidor que comprou a carne, também trabalha na fábrica de ração que alimentou o boi.O dinheiro sai inteiro da sua mão como consumidor, mas o que retorna para a sua mão como renda é apenas uma fração do que já foi um dia. Se, depois, essa mesma pessoa não consegue pagar a fatura, chamamos isso de inadimplência. O mercado precifica o risco, aumenta os juros e encarece ainda mais o sistema. A bola de neve segue girando. O sistema cobra porque há risco, mas, ao drenar valor demais, também ajuda a produzir o risco que depois serve de justificativa para cobrar ainda mais.


Na física, a Máquina de Carnot é uma referência teórica de eficiência. De forma simples, ela mostra que nenhum sistema térmico consegue transformar toda a energia recebida em trabalho útil. Sempre haverá alguma perda no processo. Usando motores reais como exemplo, isso fica mais claro. Nem toda energia vira movimento útil. Parte acaba dissipada em forma de calor, inclusive pelo atrito entre os componentes, o que ajuda a explicar por que os motores esquentam durante o funcionamento. A própria física, portanto, nos lembra que o ciclo perfeito é impossível. Mas a engenharia evoluiu justamente tentando reduzir perdas, melhorar eficiência e extrair mais trabalho útil da energia disponível.


Talvez essa seja a reflexão que também precisamos fazer na economia real. O problema não é existir perda, custo, intermediação, imposto, crédito ou regulação. O problema é quando a perda acumulada nessa engrenagem se torna excessiva, quando o sistema consome mais valor do que devolve, quando o dinheiro sai inteiro, mas chega cansado. A engenharia tem avançado muito na busca por eficiência e redução da perda energética. Será que, na economia, estamos ficando para trás?


Antonio F. Brandão Neto é executivo em saúde, especialista em estratégia, gestão e performance, com atuação em hospitais de grande porte e em governança corporativa.



Nota: As opiniões aqui expressas são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a posição das instituições às quais esteja vinculado.

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