Dr. Fabio Vilas-Boas
Cardiologista | Doutor em Ciências (USP) | Titular
Academia de Medicina da Bahia
Todo ano, quando chega a época de discutir o reajuste dos planos de saúde, a história se repete: consumidores estão insatisfeitos, as operadoras falam sobre aumento de custos, e os governos tentam mostrar que estão protegendo os usuários. Este ano, a ANS definiu um teto de 5,11% para o reajuste dos planos individuais e familiares (o menor número desde a pandemia), exceto em 2021.
A princípio, isso soa bem. Para milhões de famílias, de fato, traz algum alívio. Mas, no fundo, não resolve o problema central da saúde suplementar no Brasil.
O sistema ainda está estruturado para pagar por episódios, procedimentos e internações, quando, na verdade, o foco deveria estar em cuidar das trajetórias clínicas dos pacientes. Ele consegue lidar bem com situações agudas: um infarto, uma cirurgia, uma infecção grave, um AVC, uma descompensação.
Contudo, frequentemente deixa o paciente na parte mais complicada: quando ele sobrevive, mas ainda não conseguiu se recuperar completamente.
É nesse período que surgem novas internações, perda de funções, dependência, erros na medicação, sobrecarga para a família e uso desnecessário de emergências. A alta do hospital, que é celebrada como um desfecho positivo, muitas vezes acaba sendo apenas uma transferência de responsabilidade para famílias despreparadas, lares que não estão prontos e redes de cuidado que não se comunicam bem.
Não dá para ter sustentabilidade real só com auditorias, negociação de tabelas ou limitações de uso. Essas medidas podem frear gastos no curto prazo, mas não mudam o funcionamento do atendimento. O maior custo na saúde é gerado por um cuidado que é fragmentado, tardio e que não consegue devolver a funcionalidade ao paciente.
A discussão deveria ser outra: quantos pacientes conseguiram voltar a andar, comer, respirar sem ajuda ou retomar a vida em família? Quantos evitaram uma nova internação em menos de 30 dias? Quantas famílias tiveram orientações adequadas para cuidar com segurança?
Hospitais de transição, reabilitação e cuidados paliativos não são apenas estruturas intermediárias ou “menos complexas”. Eles são uma resposta sofisticada a uma população que está envelhecendo, com doenças crônicas e mais vulnerável após a fase aguda.
O futuro da saúde não vai ser definido apenas pelo índice de reajuste das mensalidades. Ele vai depender da capacidade de trocar desperdício por coordenação, internações repetidas por recuperação funcional e altas precoces por cuidados contínuos.
O melhor sistema não é aquele que apenas mantém o paciente vivo. É aquele que consegue devolvê-lo, tanto quanto possível, à sua vida habitual.