Casas Bahia: quando a crise tem nome, endereço e milhares de famílias.

Foto: Divulgação
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Casas Bahia. Apesar do nome, a crise das Casas Bahia não nasce na Bahia. Seus efeitos, porém, encontram um estado onde o desemprego ainda está muito acima da média nacional. E talvez seja justamente por isso que essa história deva nos interessar.


Nos últimos dias, o país acompanhou o pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia e a confirmação do fechamento de 298 lojas. A companhia, uma das marcas mais conhecidas do varejo brasileiro, atravessa uma reestruturação que não começou agora e que chega a um dos seus momentos mais delicados.

Mas esta não é apenas uma história sobre uma empresa em dificuldades. É uma história sobre trabalho, renda, crédito, consumo, imóveis vazios, fornecedores, cidades e famílias. É, sobretudo, uma história sobre desenvolvimento.



A crise não começou ontem


O que vemos agora é resultado de um processo que vem sendo construído há alguns anos. Em 2023, o grupo iniciou uma profunda transformação de sua operação. Em 2024, recorreu a uma recuperação extrajudicial para reorganizar parte de suas dívidas.Depois vieram mudanças societárias, renegociação com credores, fechamento de unidades e redução da estrutura.


Em 2026, o cenário se agravou. O balanço do segundo trimestre confirmou um prejuízo de R$ 10,1 bilhões. É importante observar, entretanto, que cerca de R$ 9,1 bilhões desse resultado estão relacionados a efeitos contábeis não recorrentes, sem impacto imediato no caixa. O prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões.


Dias depois, a companhia protocolou seu pedido de recuperação judicial, envolvendo aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas. Recuperação judicial não significa necessariamente falência e tampouco que as Casas Bahia deixarão de existir. Trata-se de um instrumento previsto para permitir que uma empresa em dificuldade reorganize suas dívidas enquanto procura preservar suas atividades. Mas existe uma questão que os números empresariais não conseguem responder sozinhos:


O que acontece com as pessoas quando uma empresa precisa diminuir para continuar existindo? Quando 298 portas se fecham.


Uma loja não é apenas um ponto de venda. Atrás de cada porta existem trabalhadores. Ao redor dela existem restaurantes, vendedores, transportadores, prestadores de serviços e pequenos negócios que dependem daquela circulação econômica. Existe um imóvel que poderá ficar vazio. Existem fornecedores que aguardam pagamento. Existem famílias que organizaram suas vidas em torno daquela renda. Por isso, quando centenas de lojas fecham simultaneamente, não estamos diante apenas de uma decisão administrativa. Estamos diante de um acontecimento econômico que se espalha pelo território. E é justamente aqui que a Bahia entra nesta história.


O Brasil melhora. A Bahia ainda espera. Quem paga a conta?


É importante reconhecer que o mercado de trabalho brasileiro apresentou melhora. No segundo trimestre de 2026, a taxa de desocupação no país caiu para 5,4%, o menor resultado para esse período desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012. Mas médias nacionais não contam todas as histórias. No primeiro trimestre deste ano, enquanto a taxa brasileira estava em 6,1%, a Bahia registava9,2% de desemprego, figurando entre os estados com os maiores índices do país. Isso significa que grandes processos de demissão não produzem os mesmos efeitos em todos os territórios.


Perder um emprego em uma economia capaz de rapidamente absorver trabalhadores é uma coisa.

Perdê-lo em um território onde encontrar uma nova oportunidade já é difícil é outra completamente diferente.


É por isso que precisamos falar sobre desenvolvimento para além do crescimento econômico.


Quem paga a conta?


Existe uma lógica compreensível por trás de qualquer recuperação empresarial: reduzir custos, renegociar dívidas, preservar caixa, aumentar eficiência e tentar manter a companhia funcionando.Uma empresa que desaparece também destrói empregos, renda e riqueza. Mas existe outra pergunta, menos confortável, que precisa acompanhar essa discussão: como são distribuídos os custos para salvar uma grande empresa?


Quanto desse custo fica com investidores e acionistas? Quanto fica com bancos e outros credores?  Quanto chega aos fornecedores? Quanto recai sobre os trabalhadores? E quanto é silenciosamente transferido para as cidades e para as famílias?


A pergunta ganhou ainda mais importância nesta quarta-feira, 19 de agosto. A Justiça do Trabalho determinou o restabelecimento dos contratos de aproximadamente 1.900 trabalhadores desligados durante a reestruturação e proibiu novas demissões coletivas sem negociação sindical prévia.


A decisão não determina a reabertura das lojas, mas coloca no centro do debate uma questão fundamental: como conciliar a necessidade de recuperação de uma empresa com a proteção de milhares de trabalhadores? Essa talvez seja uma das discussões econômicas mais importantes do nosso tempo.


Porque frequentemente privatizamos os resultados positivos, mas socializamos silenciosamente parte das consequências das grandes crises empresariais.Não é necessário transformar empresários em vilões nem trabalhadores em números para reconhecer essa realidade. É preciso apenas olhar para toda a cadeia.


Desenvolvimento também acontece na calçada


Quando pensamos em desenvolvimento econômico, costumamos falar de PIB, investimentos, juros, crédito, Bolsa de Valores e resultados empresariais.Tudo isso importa. Mas desenvolvimento também acontece na calçada. Acontece quando alguém sai de casa pela manhã sabendo que tem um emprego.Quando uma família consegue pagar seu aluguel.Quando um pequeno restaurante permanece aberto porque existem trabalhadores almoçando naquela região. Quando uma rua comercial continua movimentada. Quando uma empresa paga seus fornecedores e esses fornecedores conseguem pagar seus empregados. Uma grande loja fechada pode parecer apenas um endereço retirado de uma planilha corporativa. Para uma cidade, entretanto, aquele endereço pode representar circulação econômica. E quando 298 endereços desaparecem quase simultaneamente, alguma coisa se movimenta junto com eles.


Um país em ano de escolhas


Há outro elemento que torna essa discussão ainda mais necessária: estamos em um ano eleitoral. Nos próximos meses ouviremos muito sobre crescimento, emprego, desenvolvimento, responsabilidade fiscal e geração de oportunidades.


Talvez devêssemos aproveitar episódios como o das Casas Bahia para perguntar aos nossos candidatos e também a nós mesmos o que entendemos verdadeiramente por desenvolvimento.


Desenvolvimento para quem? Crescimento medido por quais indicadores? Emprego de qual qualidade?E quem deve ser protegido quando grandes transformações econômicas acontecem?  Essas perguntas não pertencem à direita ou à esquerda.Pertencem a qualquer sociedade que pretenda discutir seriamente seu futuro.


O mundo está em movimento


A crise das Casas Bahia chama atenção porque envolve uma marca gigantesca e conhecida por praticamente todos os brasileiros. Na Bahia, o próprio nome desperta curiosidade. Mas talvez o mais importante seja enxergar além dele. O que está acontecendo com a companhia é também um retrato de um varejo pressionado por crédito caro, transformações no consumo, mudanças tecnológicas e necessidade permanente de eficiência.


Empresas precisarão mudar. Modelos de negócio desaparecerão. Outros nascerão. O mundo continuará em movimento.


A questão que permanece é como construiremos mecanismos para que as pessoas não sejam simplesmente descartadas durante essas transformações.


Porque uma economia pode se recuperar, umaempresa pode renegociar suas dívidas, um imóvel pode encontrar outro locatário, o capital pode procurar outro investimento. Para uma família que perdeu sua principal fonte de renda, entretanto, a recuperação tem outro tempo.


Talvez o verdadeiro desenvolvimento possa ser medido justamente aí: não apenas pela velocidade com que empresas conseguem se reorganizar, mas pela capacidade de uma sociedade de não abandonar as pessoas durante o caminho.



O mundo está em movimento. A pergunta é:estamos construindo um movimento de desenvolvimento ou apenas aprendendo a administrar quem fica para trás?

 

Sobre a autora

Elisangela” Zazá” Sousa

Pesquisadora dedicada aos desafios contemporâneos da democracia, das políticas públicas e dos direitos humanos. Historiadora, Mestra em Direito, Governança e Políticas Públicas e Doutoranda na Universidade de Salamanca, Espanha.

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