O Que Cabe no Prato Quando o Mundo Escolhe a Guerra?

Foto: Divulgação
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Por que o mundo encontra dinheiro tão rapidamente para enfrentar inimigos militares, mas continua demorando para enfrentar a fome?


Há poucos dias, conversando com um diretor de escola, ouvi uma realidade que me incomodou ou provocou bastante meus pensamentos: algumas crianças chegam à sala de aula movidas não apenas pela vontade de aprender, mas também pela certeza de que ali terão o que comer.


É uma frase difícil de ouvir. Mais difícil ainda é imaginar o que ela significa na vida de uma criança. Como prestar atenção à professora quando o corpo sente fome? Como aprender matemática, história ou português quando a maior preocupação daquele dia é saber se haverá comida?


Para muitas famílias brasileiras, a alimentação escolar representa mais do que uma refeição servida no intervalo. Ela ajuda a garantir que a criança permaneça na escola e tenha condições de aprender. Isso não diminui o valor da educação. Ao contrário: mostra que não existe aprendizagem separada das condições concretas da vida.


Talvez pareça estranho começar uma conversa sobre guerra falando da merenda de uma escola brasileira. Mas essas duas realidades estão mais próximas do que imaginamos.


A guerra também chega ao supermercado

Quando uma guerra começa, seus efeitos não ficam limitados ao campo de batalha. Eles atravessam fronteiras e chegam ao preço dos alimentos, dos combustíveis e dos fertilizantes. Afetam o emprego, o orçamento dos governos e a mesa das famílias. Em muitos lugares, obrigam pessoas a abandonar suas casas, suas cidades e até seus países.


O mundo vive uma situação contraditória. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a humanidade construiu uma ampla estrutura jurídica internacional destinada a proteger civis e limitar a violência. Mesmo assim, em 2025, o Programa de Dados sobre Conflitos de Uppsala registrou 65 conflitos armados envolvendo pelo menos um Estado. Foi o maior número desde o início da série histórica, em 1946.


No mesmo ano, os gastos militares mundiais chegaram a quase 2,9 trilhões de dólares, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo. Foi o maior valor já registrado pela instituição e o 11º ano consecutivo de crescimento dessas despesas.


Enquanto isso, organismos das Nações Unidas estimam que aproximadamente 645 milhões de pessoas passaram fome em 2025. Outras 2,1 bilhões enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave, o que significa não ter acesso regular a alimentos suficientes ou precisar reduzir a qualidade e a quantidade do que se come.


São números indigestos. Talvez seja exatamente por isso que precisamos falar sobre eles.


A comparação não significa que todo dinheiro destinado à defesa poderia simplesmente ser transferido para a compra de alimentos. Os países precisam proteger seus territórios e suas populações. Também não podemos afirmar que os gastos militares sejam a única causa da fome.


A pergunta é outra: por que, quando a ameaça é militar, dinheiro, tecnologia e decisões aparecem tão rapidamente, mas, quando o inimigo é a fome, milhões de pessoas continuam esperando?


A fome também está no Brasil

O Brasil apresentou melhora recente nos indicadores de segurança alimentar, e isso precisa ser reconhecido. Mas melhora não significa problema resolvido.

Segundo o IBGE, em 2024, aproximadamente 18,9 milhões de domicílios brasileiros ainda conviviam com algum grau de insegurança alimentar. Isso representava quase um em cada quatro lares do país.


A insegurança alimentar não se distribui de maneira igual. Ela atinge com maior força famílias pobres, negras, chefiadas por mulheres e moradores de regiões com menos oportunidades e menor presença de serviços públicos. Norte e Nordeste continuam exigindo atenção especial, não porque seus habitantes sejam menos capazes, mas porque as desigualdades brasileiras possuem endereço, cor e história.


É nesse cenário que a alimentação escolar se torna tão importante. Uma criança com fome não possui as mesmas condições para aprender que uma criança bem alimentada. Antes de cobrar desempenho, disciplina ou concentração, precisamos perguntar se aquele estudante dormiu bem, se tem uma casa segura e se encontrou comida antes de chegar à escola.

Quando uma escola alimenta uma criança, não está oferecendo caridade. Está executando uma política pública e protegendo um direito.


O que estará em disputa nas urnas

Em 2026, os brasileiros voltarão às urnas em um ambiente marcado pela polarização. Fé, medo, identidade e indignação aparecem diariamente em discursos, vídeos e mensagens nas redes sociais. Em meio a tanto barulho, questões concretas podem desaparecer.


A fé merece respeito. Para milhões de brasileiros, ela oferece esperança e sustentação nos momentos mais difíceis. Mas nenhuma citação religiosa deve substituir uma explicação sobre emprego, escola, segurança, alimentação e orçamento público.


Um candidato pode dizer que acredita em Deus. O eleitor também precisa saber em quais políticas esse candidato acredita.


Nas eleições deste ano, todas as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados estarão em disputa. Também escolheremos 54 senadores, dois por estado e pelo Distrito Federal. Mesmo assim, quantos eleitores conhecem o trabalho realizado pelos parlamentares em quem votaram? Quantos sabem que terão direito a escolher dois nomes para o Senado?


Não precisamos dominar palavras como direita, esquerda, marxismo ou feminismo para fazer perguntas fundamentais. Antes de escolher um lado, o eleitor pode perguntar: essa proposta melhora a vida de quem trabalha? Protege as crianças? Respeita as mulheres? Reduz a fome? Defende a democracia? Preserva as riquezas do país?


Democracia não significa concordar com tudo. Significa garantir que diferentes projetos possam disputar o voto, que o poder seja fiscalizado e que o cidadão tenha liberdade para escolher, cobrar e mudar sua escolha.


Proteger um país é mais do que comprar armas

Defesa nacional não se resume a soldados, tanques e aviões. Um país também precisa proteger suas escolas, seus sistemas de comunicação, sua produção de alimentos, suas fontes de energia, suas fronteiras e seus recursos naturais.


O Brasil possui minerais essenciais para fabricar celulares, veículos elétricos, equipamentos médicos, sistemas de energia e armamentos. Por isso, outra pergunta precisa ser feita: quem decide o destino dessa riqueza? O país ficará apenas com a retirada do minério ou também produzirá conhecimento, empregos qualificados e tecnologia?


Soberania não é apenas controlar o mapa. É possuir condições para decidir o próprio futuro.


Isso também está relacionado à mobilidade global. Quando faltam comida, segurança e perspectivas, as pessoas se movem. Algumas deixam o bairro.


Outras atravessam um estado. Muitas tentam sair do país. Nem toda migração acontece por causa de uma guerra, mas muitos deslocamentos carregam uma busca por proteção, trabalho ou futuro.


Do prato à urna

O mundo não muda apenas quando um presidente declara uma guerra. Ele também muda quando o preço da comida aumenta, quando uma mãe não consegue alimentar o filho, quando uma criança depende da escola para comer e quando milhões de pessoas votam sem compreender plenamente o que está em disputa.


As grandes decisões políticas parecem distantes, mas chegam todos os dias à nossa mesa. Elas determinam quanto será investido em armas, escolas, hospitais, empregos e proteção social. Também definem quais territórios receberão segurança e quais populações continuarão expostas ao abandono.


A criança mencionada no início deste texto talvez ainda não saiba o que significa orçamento público, conflito internacional ou segurança alimentar. Mas ela já sente no corpo as consequências dessas escolhas.

Por isso, antes de depositar o voto na urna, precisamos olhar para o prato.



Se o mundo encontra trilhões para se preparar contra inimigos militares, por que ainda não encontrou a mesma urgência para vencer a fome?

 

Sobre a autora

Elisangela “Zazá” Sousa

Pesquisadora dedicada aos desafios contemporâneos da democracia, das políticas públicas e dos direitos humanos. Historiadora, mestra em Direito, Governança e Políticas Públicas e doutoranda na Universidade de Salamanca, Espanha.

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