Dr. Fabio Vilas-Boas
Cardiologista | Doutor em Ciências (USP) | Titular
Academia de Medicina da Bahia
Setembro chegou trazendo uma mensagem que considero especialmente necessária. O Setembro Amarelo 2026 tem como tema “Escutar é estar presente”
.
Parece simples. Mas, na medicina, sabemos que estar verdadeiramente presente diante do sofrimento humano exige muito mais do que ouvir palavras.
A doença não atinge apenas um órgão. Ela interrompe projetos, modifica rotinas, ameaça a autonomia e desperta medo. Uma internação prolongada, um AVC, um trauma grave ou o diagnóstico de uma doença progressiva podem transformar, em poucos dias, a vida de uma pessoa e de toda a sua família.
Na reabilitação, isso se torna muito evidente. Recuperar movimentos, voltar a caminhar, falar, engolir ou realizar sozinho atividades cotidianas exige fisioterapia, tecnologia e conhecimento médico. Mas exige também motivação, esperança, acolhimento e saúde emocional.
E há momentos em que a medicina precisa reconhecer que o objetivo já não é recuperar funções ou prolongar a vida a qualquer custo. Diante da finitude, cuidar significa controlar sintomas, aliviar sofrimento, preservar dignidade e oferecer apoio psicológico, médico e espiritual ao paciente e à família.
Foi também a partir dessa compreensão que concebemos o Hospital Casa de Retiro São Francisco.
Transição, reabilitação e cuidados paliativos parecem áreas distintas, mas estão profundamente ligadas por uma mesma ideia: ninguém deveria atravessar sozinho os momentos mais difíceis da vida.
Precisamos de hospitais tecnicamente excelentes, mas precisamos igualmente de ambientes capazes de acolher o medo, a tristeza, a insegurança e o luto. Precisamos tratar doenças sem perder de vista a pessoa que existe por trás delas.
Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes deste Setembro Amarelo para todos nós que trabalhamos na saúde:
Nem sempre podemos curar. Mas sempre podemos escutar, acolher e estar presentes.
E presença também é uma forma de cuidar.