Emagrecimento não pode significar fragilizar

Foto: Divulgação
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POR: Cláudio Cunha, Nutricionista

Todo processo de emagrecimento, com ou sem medicação, carrega um risco que costuma ficar em segundo plano, que é a perda de massa muscular. Isso não é exclusividade de quem usa caneta emagrecedora. Qualquer método que gere déficit calórico, se não vier acompanhado de proteína adequada e treino de força, tende a levar embora não só gordura, mas também músculo.

Com as canetas emagrecedoras, os agonistas de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, esse risco aumenta. O forte efeito de redução do apetite faz muitos pacientes reduzirem drasticamente a ingestão de alimentos, o que compromete o consumo de proteína. Segundo o endocrinologista Marcio Mancini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, esses medicamentos podem causar deficiência de micronutrientes e perda excessiva de massa muscular quando não há acompanhamento adequado.

Estudos publicados em bases como PubMed e PMC indicam que até 40% a 45% do peso eliminado com agonistas de GLP-1 pode corresponder à massa magra, que inclui o músculo.

Por outro lado, um estudo de coorte apresentado no Congresso Europeu de Obesidade de 2025, acompanhando 200 adultos por seis meses em uso de semaglutida ou tirzepatida, mostrou que mulheres perderam em média 10,8 kg de gordura contra apenas 0,63 kg de músculo, resultado obtido justamente com supervisão médica, orientação nutricional e treino de força. O contraste entre os dois cenários mostra que o problema não está na medicação em si, mas no contexto em que ela é usada.

Para a mulher na menopausa, esse risco ganha uma camada a mais. A queda de estrogênio característica desse período já promove, por si só, uma redistribuição da composição corporal, com aumento da gordura visceral e redução progressiva de massa magra, mesmo sem qualquer intervenção medicamentosa.

Quando se soma a isso o uso de caneta emagrecedora sem acompanhamento, o resultado pode ser emagrecer perdendo justamente o tecido que mais precisa ser preservado nessa fase da vida.

Massa muscular não é só estética. Ela sustenta o metabolismo basal, participa do controle glicêmico, já que é o maior sítio de captação de glicose do organismo, e protege a densidade óssea. Numa fase em que o risco de osteopenia e osteoporose já é naturalmente mais alto, perder músculo acelera também a perda óssea. Preservar massa magra, na menopausa, é preservar autonomia.

A recomendação de sociedades científicas como o American College of Sports Medicine é clara. Pacientes em uso de agonistas de GLP-1 devem realizar treino de força voltado a todos os grandes grupos musculares, com séries de 8 a 12 repetições, pelo menos duas vezes por semana, em dias não consecutivos. O treino resistido, preferencialmente musculação, não apenas reduz a perda muscular como sustenta o metabolismo de repouso, que tende a cair junto com o peso corporal.

Isso vale para qualquer pessoa em processo de emagrecimento, não só para quem usa medicação. A diferença é que, no uso de caneta, a velocidade da perda de peso e a redução drástica do apetite tornam esse cuidado ainda mais urgente.

Nenhum desses riscos é motivo para demonizar a medicação. Os agonistas de GLP-1 representam um avanço terapêutico relevante, especialmente no tratamento de obesidade e diabetes tipo 2. O ponto não é ser contra a caneta, é ser contra o uso descontextualizado dela.

O acompanhamento nutricional entra exatamente aí, ajustando a ingestão de proteína diante do apetite reduzido, corrigindo deficiência de micronutrientes, monitorando a composição corporal ao longo do tratamento, não só o ponteiro da balança, e alinhando a estratégia alimentar ao treino de força. Emagrecer é resultado desejado. Emagrecer perdendo músculo, principalmente na menopausa, é um preço que na maioria das vezes pode e deve ser evitado.

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