QUEM TERÁ PODER NO BRASIL DE AMANHÃ? Educação, mobilidade social e a desigualdade de poder sobre o próprio futuro.

Foto: Divulgação
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Quando ouvimos a palavra poder, quase imediatamente pensamos em presidentes, governadores, magistrados, empresários, autoridades ou pessoas muito ricas. Mas poder pode ser algo muito mais próximo da nossa vida cotidiana. No Dicionário do Pensamento Social do Século XX, organizado por William Outhwaite e Tom Bottomore, encontramos uma definição que merece atenção: em sentido amplo, poder é a capacidade de produzir ou contribuir para resultados, de fazer acontecer alguma coisa que produza diferença no mundo e na vida social.


Gosto dessa definição porque ela tira o poder exclusivamente dos palácios, dos parlamentos e das grandes corporações e o coloca também dentro da vida de cada indivíduo. Se poder significa capacidade de produzir resultados, então precisamos fazer uma pergunta incômoda: quanto poder possui uma criança que chega à vida adulta sem os instrumentos necessários para compreender o mundo, fazer escolhas e transformar a própria realidade?


É justamente nesse ponto que poder, educação e pobreza começam a se encontrar. Recentemente, voltei minha atenção para um amplo estudo sobre mobilidade social no Brasil. O trabalho analisa milhões de trajetórias e mostra algo que deveria incomodar qualquer sociedade que se considere democrática: o lugar onde uma criança nasce e as condições econômicas da família em que ela cresce continuam influenciando fortemente o lugar que poderá ocupar quando adulta.


Isso não significa que o destino esteja escrito. Significa que os pontos de partida são profundamente diferentes. Há crianças que nascem cercadas por livros, boas escolas, computadores, idiomas, viagens, alimentação adequada, assistência médica, redes de relacionamento e adultos capazes de orientá-las. Outras precisam vencer enormes obstáculos simplesmente para alcançar aquilo que deveria ser o ponto de partida.


Depois, quando ambas chegam à vida adulta, dizemos: “Agora depende de você.” Não. Não depende apenas. E talvez uma das grandes violências da nossa sociedade seja transformar desigualdades estruturais em culpa individual.


É fácil falar em mérito quando não perguntamos quem teve oportunidade. É fácil dizer que alguém precisa “se esforçar mais” quando ignoramos as condições em que esse esforço começou. É fácil responsabilizar exclusivamente a pessoa pelo fracasso quando o território, a família, a escola e as instituições lhes ofereceram possibilidades muito menores desde a infância. Mérito pressupõe oportunidade.


Isso não elimina a responsabilidade individual. Ao contrário. Chega um momento em que todos nós precisamos fazer escolhas, estudar, trabalhar, buscar conhecimento, assumir riscos, aprender uma profissão, empreender ou construir novos caminhos. Mas responsabilidade individual e responsabilidade pública não são ideias inimigas. O indivíduo precisa assumir protagonismo sobre sua formação. E o Estado precisa garantir condições para que esse protagonismo seja possível.


É exatamente aí que entra a educação. Não porque um diploma seja garantia de riqueza. Não é. Não porque toda pessoa pobre que estudar ficará rica. Também não ficará. Seria cruel reduzir a desigualdade brasileira a uma fórmula tão simples.


A educação importa porque amplia aquilo que uma pessoa consegue fazer. Quem aprende a ler com profundidade interpreta melhor um contrato, uma notícia, uma proposta de emprego e até aquilo que um político promete. Quem aprende matemática compreende juros, financiamento, salário, dívida, investimento e orçamento. Quem desenvolve capacidade crítica aprende a fazer perguntas. Quem domina novas tecnologias amplia possibilidades de trabalho.


Quem aprende uma profissão pode negociar melhor sua força de trabalho. Quem produz conhecimento pode criar soluções. Quem empreende pode transformar uma habilidade em renda. Tudo isso aumenta a capacidade de escolha. E aumentar a capacidade de escolha é aumentar o poder de uma pessoa sobre a própria vida.


Essa discussão se torna ainda mais urgente porque estamos atravessando uma profunda transformação tecnológica. Inteligência artificial, automação e novas formas de organização do trabalho estão alterando profissões, empresas e mercados em uma velocidade extraordinária. Aquilo que aprendemos ontem pode não ser suficiente amanhã.


O profissional do futuro e, cada vez mais, o profissional do presente precisará aprender continuamente. Aprender. Desaprender algumas práticas. E reaprender. Isso vale para médicos, professores, advogados, comerciantes, motoristas, jornalistas, empresários, funcionários públicos e trabalhadores das mais diferentes áreas. A educação não pode mais ser compreendida como uma etapa da vida que termina quando recebemos um diploma. Ela precisa nos acompanhar.


Mas existe uma contradição que precisamos enfrentar. Enquanto o mundo do trabalho começa a exigir capacidade crítica, domínio tecnológico, adaptação e aprendizagem permanente, ainda discutimos no Brasil se nossas crianças e nossos jovens estão adquirindo conhecimentos básicos indispensáveis para seguir adiante.


E aqui precisamos ter coragem para dizer algo que nem sempre é confortável: passar de ano não é a mesma coisa que aprender. Mas reprovar também não pode ser tratado como sinônimo automático de qualidade. O debate verdadeiro não deveria ser simplesmente aprovação ou reprovação. Deveria ser: o estudante aprendeu?


Ele consegue interpretar? Consegue escrever? Consegue raciocinar? Consegue resolver problemas? Consegue argumentar? Consegue reconhecer quando está sendo enganado? Consegue aprender algo novo sozinho? Consegue utilizar a tecnologia como ferramenta, em vez de ser apenas consumidor dela? São essas perguntas que deveriam preocupar famílias, professores, gestores e toda a sociedade.


O Sistema de Avaliação da Educação Básica, o Saeb, existe justamente porque precisamos medir aprendizagem, observar desigualdades e produzir evidências para melhorar as políticas educacionais. Avaliar não deveria servir simplesmente para fabricar um ranking. Avaliar deveria servir para descobrir quem estamos deixando para trás.


E essa pergunta nos leva novamente à mobilidade social. Se uma criança nasce pobre, frequenta uma escola incapaz de lhe oferecer uma aprendizagem adequada, cresce em um território com poucas oportunidades e entra num mercado de trabalho cada vez mais exigente, qual será sua capacidade real de competir? Depois poderemos simplesmente dizer que lhe faltou esforço?



Talvez uma das maiores desigualdades existentes no Brasil seja justamente esta: a desigualdade de poder sobre o próprio futuro.


Uns recebem desde cedo instrumentos para escolher. Outros recebem limites. E quando uma sociedade reproduz continuamente esses limites de uma geração para outra, ela não está apenas reproduzindo pobreza. Está reproduzindo poder.


Está decidindo, ainda que silenciosamente, quem terá mais possibilidades de escolher e quem terá menos. Quem poderá errar e tentar novamente. Quem terá acesso às novas tecnologias. Quem conseguirá estudar por mais tempo. Quem poderá empreender. Quem ocupará cargos de liderança. Quem escreverá as regras. E quem apenas viverá submetido a elas.


Por isso, quando defendemos educação, não estamos falando simplesmente de escola. Estamos falando de liberdade. Estamos falando de cidadania. Estamos falando de mobilidade social. Estamos falando de poder.


A família tem responsabilidade. O indivíduo tem responsabilidade. A escola tem responsabilidade. As empresas também precisam participar da formação das pessoas. E o Estado não pode utilizar o discurso do protagonismo individual como desculpa para abandonar sua obrigação de oferecer educação pública de qualidade.


Não se pode exigir autonomia de quem nunca recebeu instrumentos para construí-la. Não se pode exigir competitividade de quem largou quilômetros atrás. Não se pode falar de igualdade de oportunidades quando as oportunidades nunca foram iguais.


Ao mesmo tempo, nós também precisamos abandonar a ideia de que aprender é responsabilidade exclusiva da escola. Em um mundo que muda tão rapidamente, estudar precisa se tornar uma atitude permanente. Precisamos ensinar nossas crianças a ter curiosidade. A perguntar. A pesquisar. A ler. A discordar. A construir argumentos. A compreender tecnologia. A criar. A empreender. A conhecer seus direitos. A reconhecer suas responsabilidades.


Talvez a pergunta que deveríamos fazer aos nossos filhos tenha mudado. Em vez de perguntar apenas: “Você passou de ano?”, talvez devêssemos perguntar: “O que você aprendeu?” E depois fazer uma pergunta ainda maior: “O que você aprendeu lhe permitirá fazer quais escolhas para sua vida?”


Porque é exatamente aí que conhecimento se transforma em possibilidade. Possibilidade se transforma em escolha. Escolha se transforma em liberdade. E liberdade também é poder.


Se poder é a capacidade de produzir resultados na própria vida, então a educação não é apenas uma política pública. É uma forma de distribuição de poder.



E talvez seja justamente por isso que a qualidade da educação deveria interessar a todos nós. Porque, quando decidimos quem realmente terá acesso ao conhecimento, estamos também ajudando a decidir quem terá poder no Brasil de amanhã.

 

Sobre a autora

Elisangela” Zazá” Sousa

Pesquisadora dedicada aos desafios contemporâneos da democracia, das políticas públicas e dos direitos humanos. Historiadora, Mestra em Direito, Governança e Políticas Públicas e Doutoranda na Universidade de Salamanca, Espanha.





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