Será que você vive numa bolha, cercado pelo próprio aplauso?

Foto: Divulgação
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Cercadas por concordância, pessoas em posição de influência podem perder, aos poucos, a capacidade de ouvir aquilo que precisariam ouvir antes do desastre. A política dá o exemplo mais cru, mas esse mecanismo aparece também nas empresas, nas famílias e em qualquer ambiente onde influência começa a ser confundida com verdade.


Recentemente, ao refletir sobre esse tema, lembrei de uma história que aconteceu com o pai de um grande amigo meu. Ele era um cidadão muito querido, carismático e respeitado em uma pequena cidade baiana, e decidiu disputar uma vaga de vereador. Pelas contas da eleição, algo em torno de 250 votos bastaria, com folga, para elegê-lo. Como era cauteloso, fez a campanha com uma caderneta na mão, anotando cada conversa em quatro colunas: certeza, provável, duvidoso e negativo. Ao final, contabilizou cerca de 530 votos apenas na coluna da certeza. Pela caderneta, a eleição estava ganha. Quando as urnas abriram, teve pouco mais de 90 votos.


A história é simples, e o ensinamento é áspero. Nem todo “conte comigo” vira voto, e o mesmo princípio se estende muito para fora da política. Nem todo sorriso é apoio, nem todo elogio é confiança, e poucas pessoas que gostam de você estão de fato dispostas a lhe dizer a verdade.


Talvez uma das lições mais incômodas da política seja justamente essa: pessoas em posição de influência podem acabar vivendo cercadas por concordância, aplauso e validação. Vale para quem ocupa cargo, mandato, liderança, prestígio profissional, autoridade social ou qualquer lugar em que os outros pensem duas vezes antes de emitir a própria opinião.


A bolha raramente se anuncia, ela se instala. As pessoas ao redor vão deixando de discordar de frente, passam a medir cada palavra, concordam um pouco além do que pensam e, em algum momento, só se manifestam quando manifestar-se atende a algum interesse próprio. Quando a pessoa se dá conta, se é que se dá, o que resta em volta dela é confirmação. E nem toda confirmação é verdade. Muitas vezes é conveniência, medo, interesse, educação excessiva ou simples falta de coragem para desagradar. Validação constante, sem o atrito da realidade, vira anestesia.


Nas organizações, a coisa se reproduz com outra roupa. Uma ideia ruim é apresentada e a sala balança a cabeça. Um projeto frágil segue adiante e ninguém quer ser o primeiro a apontar a fragilidade. Alguém se convence de que o ambiente está engajado porque, nas reuniões, ninguém reclama, sem perceber que a ausência de contestação virou aprovação por inércia. Em casos piores, a pessoa passa a depender psicologicamente de quem a ratifica, e essa dependência a cega justamente para o estrago que ela produz.


Até que o resultado aparece. O projeto atrasa, o cliente vai embora, o bom profissional pede demissão, a meta não fecha, o clima piora, a estratégia falha. E surge a pergunta clássica: por que ninguém me falou antes? Em geral, falaram, só que falaram baixo, quase para dentro. Ou então não falaram porque já tinham aprendido, sem precisar de aviso explícito, que discordar ali não compensava.


Há uma expressão antiga que descreve bem esse mecanismo: matar o mensageiro. Desde tempos remotos, quem entregava uma notícia ruim corria o risco de ser confundido com a própria notícia. A mensagem era desagradável, mas quem pagava era quem a trazia. Nas organizações, o gesto ficou mais sutil. Ninguém manda executar o mensageiro, evidentemente. Mas ironiza, desautoriza, interrompe, expõe diante dos pares, ignora, rotula como pessimista. Bastam algumas reações desse tipo para que todos recalibrem o filtro: notícia boa sobe, notícia ruim fica no caminho.


Não se deve culpar o mensageiro pela mensagem. A mensagem é o que importa. Se o dado é ruim, precisa ser entendido. Se a crítica é dura, precisa ser examinada. Se o alerta incomoda, talvez incomode justamente porque toca onde precisa tocar.


Existe ainda um risco mais sofisticado, e é o que torna a bolha perigosa de verdade. Dentro do ambiente de ratificação, entram com facilidade informações enviesadas, incompletas ou carregadas de interesse pessoal, porque chegam pela boca de quem já está validado, alguém que concorda, reforça, elogia e, por isso mesmo, recebe crédito automático. É quase um cavalo de Tróia. No meio de várias confirmações aparentemente inofensivas, vem uma meia verdade, uma narrativa moldada, uma sugestão “técnica” que, no fundo, protege o espaço de poder de quem está falando. Como vem embalada no mesmo tom de apoio, atravessa o portão sem ser inspecionada.


A bolha não só distorce a realidade, ela também pode ser instrumentalizada por quem aprendeu a operar essa distorção.


Na vida pessoal, o mecanismo é o mesmo. Há quem só conviva com gente que reforça suas escolhas, seus ressentimentos, suas certezas e suas desculpas. O amigo que alerta vira inconveniente, o familiar que confronta vira negativo, o colega que discorda vira invejoso, e o que sobra é um ambiente em que o conforto emocional ocupou o lugar da realidade. Quem só escuta o que quer ouvir perde a oportunidade de corrigir a rota enquanto ainda há tempo. A vida, assim como uma eleição ou uma empresa, raramente perdoa premissas falsas por muito tempo.


Por isso, quem ocupa posição de influência precisa criar mecanismos próprios para furar a própria bolha. Não basta dizer que a porta está aberta. Muitas portas estão abertas em ambientes que continuam perfeitamente fechados.


O que define se a porta funciona é o que acontece quando alguém entra por ela trazendo uma notícia ruim. É preciso cultivar pessoas com coragem de discordar, ouvir quem não precisa agradar, valorizar dado em vez de impressão, desconfiar de unanimidades que se formam rápido demais e se obrigar, com alguma regularidade, a perguntar o que ainda não está sendo enxergado.


A política ensina isso com crueldade porque, no fim, a urna não bajula. O mercado também não. O caixa, o cliente, o resultado, nenhum deles. Eles só respondem ao real.


A influência bem exercida não é a que constrói um ambiente em que todos concordam. É a que constrói um ambiente em que a verdade consegue chegar antes do desastre. A bolha protege o ego por um tempo, e cobra caro depois. Quem decide com base em aplauso quase sempre descobre tarde demais que aquele aplauso era só o eco do próprio ego.


Antonio F. Brandão Neto é Executivo em Saúde e especialista em estratégia, gestão e performance.


Nota: As opiniões aqui expressas são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a posição das instituições às quais esteja vinculado.

 

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